Dos filmes que assistí...

21/08/2004 07:56
Estréia Dogville, o filme em que Lars von Trier expressa a sua descrença no homem

Numa das muitas cenas estranhas e incômodas de Dogville,dois personagens conversam a respeito de bonecos de louça guardados no interior de uma igreja. Ele é Tom (Paul Bettany), aspirante a escritor do vilarejo que dá título ao filme, e ela é Grace (Nicole Kidman), fugitiva ali abrigada. Os bonecos “descrevem melhor a cidade do que qualquer palavra”, diz a narrativa em off, que em seguida pergunta: “Eles são bonitos ou horríveis?”. Para Grace, pelo menos àquela altura da trama, a alternativa correta parece ser a primeira. Para Tom, também parece – e a história de como a resposta lentamente se inverte é o centro deste filme que, depois de fazer barulho no Festival de Cannes, estréia no Brasil com sua metáfora devastadora sobre as relações entre o indivíduo e o poder.
Dogville inicia quando os habitantes do vilarejo decidem acolher Grace. Nesse prólogo há uma sensação geral de pureza, tanto no tom fabulístico da narração, que situa o cenário num ponto onde “os presentes caem do céu”, quanto na simplicidade e no bucolismo descritos: ali estão o arbusto de groselha, a macieira, as sardas no rosto amigável, as mãos brancas que fazem a torta e o pão. As locações têm marcação teatral, com suas indicações – “escola”, “horta”, “casa” – escritas a giz no piso. Não há paredes a dividi-las, e desde logo se propõe um jogo ao espectador: o.k., todos sabemos que estamos diante de uma representação, e aí também se imiscui um tom de sinceridade, que abre mão de truques para concentrar-se no que é essencial à história.
Da mesma maneira, Dogville parece usar a isca da “história americana” e do “teatro” para falar alto. No primeiro caso, continuamos no terreno da publicidade: a irrelevância desse recurso no enredo é óbvia. Mude-se o nome da cidade para qualquer outro, mude-se a sua época e local, e rigorosamente nada se perde do drama que a rodeia: os Estados Unidos aparecem apenas como uma sombra sem estatura, insinuada em cenas tributárias de algumas tradições do país, como o puritanismo e os tiros de metralhadora disparados por gângsteres. A questão ética, no entanto, vai muito além de preceitos de uma religião específica, e a violência é abordada tão canonicamente, numa generalização que chega a incomodar por seu esquematismo explícito, que é difícil acreditar que Von Trier esteja falando de algo mais histórico, mais circunstancial e mais ligeiro do que a própria condição do homem em conflito. A América é muito pequena diante de tamanha ambição: nas palavras do próprio filme, está-se falando é da “alma humana, onde ela cria bolhas”.
A escolha do teatro, por sua vez, é mais complexa. A forma não está ali por acaso, e a recusa ao refresco dramático e à fluidez cumprem uma função de catequese, digamos assim. Dogville tem cerca de 3h de duração, e cada minuto cobra sua taxa em aridez e peso: é como se o espectador fosse uma espécie irredimível de crédulo, que precisa ser sempre lembrado de que o mundo é feio, de que o homem é torpe, e a compreensão dessa verdade em toda a sua inteireza não é nem mesmo a saída para que algo seja mudado. O filme é enfadonho em muitos momentos, mas até nisso parece haver intenção: quebra-se o encanto para que não haja chance de enxergar qualquer beleza na sordidez, qualquer lirismo na decadência. É uma proposição evidentemente utópica: da forma como Von Trier dirige seus atores e dá vida aos diálogos e a certas nuances da trama, o que se tem ao final das contas é a temida e sempre perigosa poesia da corrupção.

Dogville, escrito e dirigido por Lars von Trier. Com Nicole Kidman, Paul Bettany, Harriet Andersson, Lauren Bacall, James Caan, Ben Gazarra, Jeremy Davies, Philip Baker Hall.
enviada por alyssa






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